SÃO PAULO - Há algo
de pedagógico na alternância do poder: percebemos com que facilidade situação e
oposição trocam de papéis -e de princípios. A greve da PM baiana é uma
oportunidade sem igual de ver a natureza humana em ação.
Em 2001, membros da
corporação deflagraram uma paralisação, que também degenerou em violência. Na
ocasião, o PT, por intermédio de Lula, defendeu a legitimidade da greve e
responsabilizou o governo baiano, que era do PFL, pela barbárie. Hoje, o
governador petista Jaques Wagner chama alguns dos grevistas de bandidos e se
recusa a negociar. Denuncia a utilização política do movimento.
Ainda mais
instrutivo é ver como os blogs de simpatizantes e antipatizantes do PT tratam a
disputa, que ainda ganha pitadas do caso Pinheirinho.
A pergunta que fica
é: as pessoas não se dão conta de suas contradições? E a resposta é "muito
pouco".
O psicólogo Drew
Westen mostrou que, na política, emoções falam mais alto que a lógica. Ele
monitorou os cérebros de militantes partidários enquanto viam seus candidatos
favoritos caindo em contradição. Como previsto, eles não tiveram dificuldade
para perceber a incongruência do "inimigo", mas foram bem menos
críticos em relação ao "aliado".
Segundo Westen,
quando confrontados com informações ameaçadoras às nossas convicções políticas,
redes de neurônios associadas ao estresse são ativadas. O cérebro percebe o
conflito e tenta desligar a emoção negativa. Circuitos encarregados de regular
emoções recrutam, então, crenças capazes de eliminar o estresse. A contradição
é apenas fracamente percebida.
A surpresa foi
constatar que esse processo de relativização não se limita a desligar as
emoções negativas. Ele também dispara sensações positivas, acionando circuitos
do sistema de recompensa, que coincidem com as áreas ativadas quando viciados
em drogas tomam uma dose. Em suma, políticos e simpatizantes sentem prazer ao
ignorar suas contradições.
(Hélio Schwartsman)
