Ministro das Cidades que sobreviveu no cargo graças à inércia e à conveniência política, será substituído pelo deputado federal Aguinaldo Ribeiro
O Palácio do Planalto confirmou, na tarde desta quinta-feira, a
demissão do ministro das Cidades, Mário Negromonte. A Presidência também
confirmou que o substituto será Aguinaldo Ribeiro, o líder da bancada do
partido na Câmara. Negromonte não foi uma exceção em um governo com seis
ministros demitidos por falhas éticas. Mas ao menos pode dizer que durou mais
tempo do que seus colegas malcomportados. Lá se vão mais de cinco meses desde
que VEJA revelou como o ministro tentou comprar apoio político
oferecendo uma mesada de 30 000 reais a deputados de seu partido, o
PP.
O anúncio oficial da demissão foi feito por
volta de 16h15, em uma nota distribuída à imprensa. O texto, de cinco linhas,
diz que "A presidente da República agradece os serviços por ele prestados
ao país À frente da pasta e lhe deseja boa sorte em seus novos projetos".
Negromonte chegou ao Palácio do Planalto por volta das 15h30, teve um encontro
rápido com a presidente Dilma Rousseff e que entregou sua carta de demissão.
Mais cedo, ele esteve com Francisco Dornelles, presidente nacional do PP. Os
dois conversaram sobre a passagem de Negromonte pelo cargo e trataram da
sucessão.
Carta - Na carta de demissão, o
agora ex-ministro seguiu o roteiro de seus antecessores: fez o papel de vítima:
"No âmbito das disputas políticas, vivenciamos uma experiência exaustiva.
Enfrentamos ataques constantes, promovidos por adversários interessados em
desestabilizar nossa permanência no Ministério das Cidades". E critica a
imprensa, que, segundo ele, repercutiu "denúncias vazias". Ele também
agradece à presidente: "Foi uma honra ter feito parte do governo da
primeira presidenta mulher do nosso país".
Corrupção - Negromonte voltou à
berlinda por diversas vezes: viu sua pasta envolvida na
adulteração de um projeto bilionário, foi flagrado
usando verbas do ministério para promoção pessoal (e eleitoral) na Bahia, e
participou de uma reunião com lobistas de uma empresa que, posteriormente,
assumiria contratos na pasta. Chegou a ser ouvido no Congresso,
mas conseguiu se safar graças à colaboração dos governistas e à falta de
ousadia da oposição.
Negromonte não gozava de nenhum prestígio
especial com a presidente Dilma Rousseff. Dentro do próprio partido, aliás, ele
enfrentava forte oposição - mais em decorrência de uma briga por espaço do que
por uma possível preocupação do PP com a ética na política. Mas se manteve no
cargo graças à inépcia do Executivo, à proximidade de uma reforma ministerial e
ao pragmatismo de sua legenda: os integrantes do partido logo notaram que, se
chancelassem a demissão de Negromonte, não teriam garantias de que indicariam o
substituto dele no ministério.
Manteve-se o
cenário insólito: um dos maiores orçamentos da Esplanada, com 22 bilhões de
reais reservados para 2012, foi comandado nos últimos meses por alguém sem
condições éticas e políticas para exercer a função. Com seis meses de atraso, o
conjunto da obra e a conveniência do momento causaram a demissão de Mário
Negromonte - a primeira de um ministro em 2012. Antes dele, dois subordinados
próximos já haviam sido exonerados: Cássio Peixoto,
chefe de gabinete, e João Ubaldo Dantas,
chefe da Assessoria Parlamentar.
Demitido,
Negromonte volta a ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados. Vai exercer o
sexto mandato. No ministério, deve ser substituído por um colega de partido. A
troca de comando no ministério eleva a lista de partidos que tiveram ministros
demitidos por causa de corrupção: agora são cinco (PP, PT, PMDB, PDT, PCdoB e
PR). Só o PSB escapou. E por enquanto. Fernando Bezerra tem feito de tudo
para provar que atende às exigências para entrar no clube de ex-ministros de
Dilma.
