Sou um apaixonado por futebol. Dia desses testemunhei um episódio que,
acredito, de alguma forma, fala à nossa condição humana.
Refiro-me ao tento anotado no começo do ano por Tim Howard, goleiro do
Everton, contra o Bolton, times da primeira divisão inglesa. Batido o tiro de
meta, eis que a bola ganhou um súbito impulso do vento e soltou-se em
trajetória tão descontrolada que acabou encobrindo o surpreso goleiro
adversário.
Foi só um gol - por mais surpreendente que tenha sido! Inusitado mesmo
foi o comportamento de Howard: recusou-se simplesmente a comemorar. À saída do
gramado, lamentou: "Foi um gol cruel. Não foi nada legal, é constrangedor,
sinto muito pelo Adam". Referia-se a Adam Bogdan, o arqueiro adversário,
do Bolton.
Todos nós sabemos que o futebol nos leva às raias da irracionalidade.
Não costuma ser local onde floresce o cavalheirismo. No entanto, até o mais
fanático dos aficionados há de reconhecer a nobreza do goleiro relutantemente
artilheiro. É só uma partida de futebol - mas quem sabe não há aí uma pequena
lição para a vida
cotidiana?
Pergunto-me se não podemos aprender alguma coisa com ela, no dia a dia
da política. Reconhecer, por exemplo, que muitas vezes não temos todos os
méritos pelas conquistas que celebramos. Que o vento, entendido como fator que
não depende do nosso esforço ou talento, existe. E pode surgir, no caso da
política, do trabalho exaustivo e dedicado de antecessores, que máquinas de
propaganda tentam apagar da memória do país.
Pode surgir ainda nas conjunturas globais, sobre as quais não temos
controle, mas que podem nos favorecer.
O cavalheirismo de Howard nos traz ainda outros ensinamentos. Reconhece
o óbvio: que o oponente merece respeito. Que não faz sentido tripudiar sobre o
adversário quando não somos os legítimos merecedores da vitória celebrada. Se
reunirmos essas simples lições talvez pudéssemos criar as condições necessárias
para um novo patamar de convivência política no país.
Sei que alguns não compreendem quando defendo que a convivência entre
adversários pode se dar em um ambiente diferente daquele estimulado pelo
antagonismo cego, pela perigosa transformação de adversário em inimigo, pela
tentativa sistemática de legitimar o uso da calúnia e da mentira como armas
políticas.
No entanto, essa é a minha convicção. Entendo a política como um
processo que exige a paciente superação das diferenças menores para que os
avanços fundamentais possam acontecer.
A força do vento é legítima. Precisa, no entanto, como um tributo à
realidade, ser reconhecida e saudada com humildade. Até porque, nem sempre ele
sopra a favor...
AÉCIO NEVES - Coluna publicada na Folha de S. Paulo
