Para sentir vergonha
TEXTO DO JORNALISTA DAVID COIMBRA PUBLICADO NA PÁGINA 2 DE ZERO HORA DESTA SEXTA-FEIRA
Governador
Tarso Genro, o senhor não tem vergonha? O Estado que o senhor governa
confina seres humanos em masmorras onde fezes e urina escorrem pelas
paredes, onde dezenas de pessoas se amontoam em cubículos do tamanho de
um banheiro, mal havendo lugar para dormir no chão, onde a sífilis, a
hepatite e a aids são disseminadas através do estupro, onde homens
convivem com ratazanas maiores do que gatos, onde a comida é preparada
em meio à imundície.
Essas pessoas, quando o Estado as mete em
tais calabouços, ao mesmo tempo em que as pune por algum ilícito, esse
Estado torna-se responsável por elas. Elas estão sob a tutela do Estado.
É do Estado, ou seja, do governador e de todos nós, cidadãos, a
responsabilidade de alimentar, abrigar e cuidar dessas pessoas. Se o
Estado não tem condições de tratá-las com dignidade, não pode assumir
esse encargo. Não pode puni-las. Pelo menos, não com a reclusão.
Tempos atrás, surgiu a proposta de privatização dos presídios. Houve
todo tipo de argumentos humanitários contra a ideia. Seriam bons
argumentos, se os gestores do sistema, entre eles o governador,
sentissem vergonha pelo que é perpetrado contra esses homens. Se,
movidos por essa vergonha, os gestores do sistema agissem com urgência
para impedir que o Estado continuasse a supliciar homens sob sua tutela.
Como ninguém sente vergonha, nem age, o Estado tem a obrigação de
desistir da tarefa e entregá-la para quem possa cumpri-la a contento.
Sinto vergonha pelo que é cometido contra esses homens no meu lugar, o
Rio Grande do Sul, e no meu tempo, o século 21. Mas isso não me absolve.
Não absolve a nenhum de nós.
Nesta mesma semana em que o
Brasil inteiro ficou ciente do que o Rio Grande do Sul faz com os homens
que estão sob sua responsabilidade, um pitbull foi morto a tiro pelo
segurança de uma universidade. O caso fez o Rio Grande se levantar como
se fosse um só homem. Estudantes organizaram um protesto na universidade
contra o segurança, uma passeata está prevista para ocorrer nos
próximos dias, ouvintes de rádio, telespectadores de TV e leitores de
jornal se manifestaram em espaços interativos, defensores do cão e do
homem se bateram munidos de argumentos furiosos. Leio, também, que em
Pelotas um cachorro acidentado mobilizou a comunidade, que ele recebe 30
visitas por dia no hospital e que se alimenta com filé.
E os
milhares de homens martirizados do Presídio Central? Ninguém se importa
com eles? Onde está a solidariedade da espécie? Há manifestações
ruidosas a favor até das bicicletas, mas ninguém sai às ruas para
protestar contra um Estado que mantém seres humanos vivendo em meio aos
excrementos, dormindo na pedra dura, comendo lixo e sendo currados todos
os dias. Não sentimos vergonha por isso. Isso ocorre aqui, no Rio
Grande do Sul, não no Afeganistão; isso ocorre hoje, em 2012, não na
Idade Média. Não se pode aceitar isso, governador. É preciso que se faça
algo já. Se não porque é o certo a fazer, pelo menos porque temos
vergonha.